Grandes segredos envolvem a Guerra Guaranítica e aos poucos estão sendo decifrados. Entre 1754 e 1756 ocorreu a guerra a partir do Tratado de Madri que previa a retirada do Povo Missioneiro do atual local que conhecemos. No começo de 1756, os Reis de Portugal e Espanha deram ordem para que as hostilidades prosseguissem. Agora de forma organizada e integrada, os dois exércitos no dia 16 de janeiro entraram em campanha. Apesar de toda a contraposição dos guaranis, que usavam o método de guerrilha contra os dois poderosos exércitos, tiveram que recuar.

No dia 07 de fevereiro de 1756, num sábado é morto Sepé Tiaraju. Nesse dia, os missioneiros armam mais uma emboscada às tropas ibéricas, ao deixarem, como isca, uma ponta de gado à vista dos invasores. Cavaleiros missioneiros atacaram céleres e lancearam mortalmente dois peões portugueses lusitanos que haviam cruzado o arroio Vacacaí para reunir, abater e carnear os animais.

Talvez prevenidos contra a tática utilizada anteriormente, às cinco e meia da tarde, o comandante Andonaégui enviou trezentos soldados espanhóis e portugueses, em dois esquadrões, em perseguição dos setenta a oitenta cavaleiros missioneiros, reunidos próximos a um capão.

Na perseguição, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um desnível do terreno, lançando o cavaleiro ferido ao solo.  Aproveitando a oportunidade, um peão português cravou uma lança no chefe militar missioneiro; depois Joaquim Viana, espanhol, deu-lhe o tiro mortal com uma pistola, dando fim à vida do corregedor. No combate, os espanhóis tiveram dois mortos e os missioneiros, oito.

Conforme o relatório do padre Henis, jesuíta da redução de São Lourenço e que produziu o relato da Guerra Guaranítica em nome dos missioneiros, escreve que os portugueses e espanhóis queimaram o corpo de Sepé Tiaraju, com pólvora, mesmo que estivesse respirando e o martirizaram de outras maneiras. Enterraram (com os sagrados cânticos e hinos que usavam nas igrejas, porém sem sacerdote) o corpo do Capitão, em uma vizinha selva, havendo buscado de noite os seus com grande dor, a medida do amor que tinham por ele.

Enterram-no onde? É uma pergunta que não quer calar. Imagine o prefeito, que ainda detém a presidência da câmara e juiz do local, para onde levariam? Não consigo imaginar outro local se não na própria redução.

Retomando a análise do relatório do Padre Henis, é importante observar que ele aprofunda a morte de Sepé, mostrando a martirização. Passa a ser uma informação muito importante, até mesmo para aqueles que, ao passar os 260 anos da morte, tentam agora a canonização, especialmente o trabalho do Irmão Cecchin, falecido no final do ano passado (2016).

O mesmo relatório diz que foi de admirar o quanto caíram de ânimo os índios com a morte tão intempestiva de seu capitão, em cujo valor, prudência e arte, tinham posta toda sua esperança.

Três dias após a morte de Sepé Tiaraju, no dia 10 de fevereiro, Nicolau Languiru, corregedor de Conceição, comandou o Exército Guarani no combate mais encarniçado e desastroso de todos os 160 anos do povo Guarani. Na Batalha de Caiboaté morreram 1.500 índios. As forças organizadas missioneiras, não tendo mais forças de resistência, decompõem-se.

Os relatórios de Guerra mostraram as quatro visões diferentes sobre o que ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1756, pois a forma de contar é diferente, embora tenham muitos pontos em comum. Com precisão, observava-se que os relatórios portugueses e o espanhol são praticamente iguais, inclusive, em certos trechos, nota-se que ocorreu um acerto para escrever o que interessava aos vencedores. O que se encontrou nos últimas pesquisas foi a visão do Padre que se manteve com os índios, Tadeo Xavier Henis, da Companhia de Jesus, no seu “Diário Histórico da Rebelião e Guerra dos Povos Guaranis, Situados na Costa Oriental do Uruguai do Ano de 1754”.

“Desde muito de manhã (10 de fevereiro), formados em batalha os esquadrões, marchou contra os índios, os quais tomando as armas e saindo fora do fosso, se opuseram audazes ao inimigo: porém não bastante prevenidos, porque todos, menos 50, estavam a pé, enganados com a imediata função, e julgando que o negócio mais se havia de decidir com palavras e cartas que com a espada. Alguns persuadiam que se seguisse o conselho do capitão defunto, José, e que deviam retirar até as montanhas, se tardarem os aliados: porém prevaleceu o ditame do novo capitão Nicolau, que pensou que deviam pelejar, se fosse necessário, e de nenhum modo ceder. Este falou com Pascual, Alferes Real de São Miguel, saindo de suas linhas, se acercou a do inimigo, e perguntou o que queriam? Se lhe respondeu, que eles iam aos povos de índios, e que se separassem e não impedissem o caminho. Assalariou então a um miguelista (da redução de São Miguel Arcanjo), chamado Fernando, para que fosse aos generais inimigos e lhes perguntasse a causa da vinda: com dificuldade se achou quem fora, porém finalmente marchou, e sendo levado ante o general espanhol, havendo-lhe exposto as coisas que seus padres, os jesuítas, e as que também seus mesmos compatriotas haviam padecido para obedecer ao Rei, até haver morto ou caído na demanda, lhe pediu em nome de seus capitães e povo, que desistissem do intento, porque de outra sorte estava disposta a gente a pelejar, e defender o que era seu. Disse o General espanhol e Governador da Província, que havia de ir adiante, ainda que não quisessem os índios, e que a ele e aos seus havia de persegui-los até sujeitar todos os povos, segundo o decreto do Rei: e que sabia muito bem que três padres estavam em um vizinho lugar, colônia de São Miguel; e que assim fosse, e lhes dissesse em seu nome, que ele esperaria três dias (porque perguntado os vaqueanos, disseram que era necessário este tempo para levar o aviso, sendo assim que o povoado dista do lugar dia e meio de caminho, ou quase 30 léguas) e viessem os padres com os cabildos dos seus e de outros povos, e ao nome do Rei dessem a obediência ao Capitão General. Saiu dos reais o dito Miguelista, Fernando, e referindo a seus caciques que estavam esperando algumas poucas coisas de que a eles pertenciam, tomou o caminho sem parar, entre os esquadrões que depois haviam de pelejar, até o povo de São Xavier, onde os ditos padres esperavam de oficio, parte para precaver os danos de suas ovelhas, parte, e especialmente, para atender ao bem das almas dos índios, que se dispunham ao combate. E como uma multitude de soldados indisciplinados e livres pode acolher qualquer suspeita, tomando à mal esta retirada de Fernando os soldados de outros povos, pensaram que este, e todos os Miguelistas maquinavam danos e traições. Quatro puseram-se a cavalo (não sei de que povo) conclamaram, e unidos seguiram a Fernando, e tentaram matar-lhe: ele que, estando para ser degolado, pode livrar-se fugindo, e ao cabo de quatro dias com dificuldade chegou aos padres a outra parte do Monte Grande, e detalhadamente contou na estância de Santiago seus perigos, que a fama muito antes havia divulgado e avultado com as mais vivas cores.

Porém durante o tempo que Fernando padecia entre os seus estas coisas, o povo sofreu dos inimigos um grande estrago: porque apenas o enviado saiu do campo contrário, quando viu que se formava em batalha, se aprontavam as armas e punham a frente à artilharia. Adiantaram-se quatro capitães, e disseram a vozes, que se apartassem os índios, e dessem lugar para que passasse o exército espanhol e português, que não queriam os Generais matar, nem tirar as vidas, se não tomar caminho livre. Enganada a plebe simples dos índios com este pregão tão falaz, uns se dispunham a retirar-se, outros o começaram a fazer: porém outros mais esforçados e advertidos rogavam com ardor não se rendessem, que já não era tempo de render-se, senão de valer-se até o último das forças e valor: que convinha morrer pelejando, e não fugindo. Aprontados, pois seis canhões carregados de muita metralha, e feito sinal, começaram os espanhóis o combate com pouco efeito: porque alguns índios a primeira descarga se esconderam nos fossos que antes  haviam feito, os quais não defendiam o bastante aos que se agachavam: outros persistiam pelejando, outros retrocediam. Vendo a cavalaria do inimigo, dividida em três partes o exército dos índios, com um movimento rápido cortou a que retrocedia da que pelejava, e assim um pedaço, seguindo aos rendidos, os pôs em fuga, e matou: mas, a outra, unida com a infantaria pela retaguarda, atacou aos que pelejavam, e com ferocidade os destroçou; e finalmente, com dificuldade fez cessar o General a matança.

Não é de admirar que os índios fugissem, e haviam sido vencidos, assim como não é gloriosa para os espanhóis a vitória: porque com 3.000 bem armados, com armas de fogo, e muitíssimo bem disciplinados, pelejando contra os que não tem senão arcos, flechas, fundas e lanças, e que não sofrem disciplina, nem conhecem chefes, senão no nome, houveram posto um grande borrão, ou desonra ao nome espanhol se houvessem sido vencidos. Não obstante, com inumanidade usaram desta vitória: porque para fazer mais crua e feroz a guerra, dizem os índios, que se encarniçaram, “incendiando de novo o queimado”, e assim à tarde voltaram a repetir os lançassos em quase todos os mortos, por se acaso alguns estivessem vivos, e tirando os reais um pouco mais além do lugar da matança. Este dia os fixaram fora dos cadáveres.”

Analisando os quatro relatórios, pode-se observar diferenças, especialmente entre os três documentos europeus, que são muito parecidos, e o do Padre jesuíta Henis. Este mostra um aspecto que é a presença de Fernando, representante da tropa guarani frente ao General espanhol que deu a palavra, isto é, que esperaria 3 dias para que viessem os padres com os cabildos para acertar a obediência em nome do Rei aos Comandantes. Tanto o relato de Henis, quanto do Capitão Dom Francisco Graell, do Engenheiro Militar José Custódio de Sá e Faria, e do Capitão Jacinto Rodrigues da Cunha. Todos citam a presença, junto às tropas européias, do representante do comandante indígena, Capitão Nicolau, o Alferes Real Pascual, conforme Henis lhe dá o nome, e nunca os acertos feitos com Fernando, citado por Henis, e que se houvessem cumprido o que havia sido acertado jamais haveria tal mortandade naquele dia. É de se salientar que os documentos de Grael e José Custódio são praticamente idênticos nesta visão, parecendo mesmo que foram combinados, parafraseados. Esses escritos quase iguais foram produzidos para encobrir o mesmo pecado capital do não-cumprimento da palavra do general. O não-cumprimento da palavra dada, se contasse num ou outro relatório dos ganhadores, teria sujado, definitivamente o nome de Portugal e de Espanha.

Conforme a história que chega até os dias atuais os habitantes de São Miguel tinham-lhe lançado fogo e desaparecido com seu cura, o Padre Balda. O fogo destruiu os edifícios mais importantes e parte da igreja, mais especificamente a sacristia, onde se pode ver claramente o trabalho que o fogo realizou no arenito, o qual mantém os sinais até o presente.

Sobre o fogo posto na igreja de São Miguel Arcanjo, o Padre Tadeo Xavier Henis, expõe no item 114 este relato “Dia 12. Havendo-se o inimigo acampado nas cantarias do povo distante quase três léguas dele e já à vista, ao cair da tarde, os padres do povo de São Miguel se foram fugindo ao dito (rio) Piratini, não salvando nada do povo de São Miguel, senão que escondidas aqui e acolá, e enterradas as coisas, se foram. Isso se fez por falta de bois e de cavalos que levassem os trastes em carros; porque nestes dias, movendo-se, como é costume, um desentendimento entre eles índios, não sei por que suspeita, originada de que houvessem dado cavalos a um paisano, chamado “Tary”, que havia se passado aos inimigos, que aquele os tinham bastantemente gordos, vindo os demais espanhóis fracos e exaustos, como os soldados dos outros povos, tiraram aos pobrezinhos miguelistas (de São Miguel) quase todos os cavalos e bois. Daqui nasceu que, depois da saída dos padres, os  soldados dos outros povos, especialmente os de São Nicolau, os angelotes (de Santo Ângelo) e tomistas (de São Tomé), pilharam todas as bagagens e o abastecimento que se havia deixado no  povo, havendo feito pedaços às portas, e arrastado ao porteiro, levaram quanto encontraram: e depois de saqueada a casa dos padres, lhe puseram fogo: ele que, tomando corpo nos tetos, descobriu a muitas coisas que estavam escondidas nos tablados, deixando por preza dos índios o que não consumia. Também puseram fogo ao povo, porém a grande chuva que caiu esta noite apagou o incêndio, queimando-se toda a casa dos padres, mas não a igreja, a que perdoaram as chamas, duvidando-se se apagado pelo Santo Patrono São Miguel, ou por seus altos paredões de pedras.”

José Roberto de Oliveira
joseroberto_deoliveira@yahoo.com.br

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